Só para fazer o primeiro post do ano, um cartum sensacional do Allan Sieber (clique no cartum para ver em tamanho maior), que resume exatamente o que eu gostaria de aconselhar todas as pessoas do mundo a fazer:
E é isso, enquanto me falta criatividade para fazer um post mais elaborado. Desejo a todos um 2009 digno de figurar com destaque na estante.
Advogar é, essencialmente, passar o tempo tentando driblar a bur(r)ocracia.
Estou fazendo um inventário administrativo - ou seja, em cartório, ao invés de judicial. Uma das etapas disso tudo é preencher uma declaração dos bens e direitos sendo transmitidos, calcular o ITCD (Imposto sobre Transmissão de bens "Causa mortis" e Doações) incidente, recolhê-lo, e mandar tudo para a Fazenda Estadual homologar.
Um mês atrás, fiz isso tudo. Agora, a Fazenda devolveu... Dizendo que precisamos pagar mais 4 mil reais. Obviamente, fui tentar descobrir a razão da cobrança, para, se for o caso, impugnar. E aí começou a minha diversão de hoje.
Olhei no site da Secretaria da Fazenda, e não consegui descobrir exatamente onde deveria ir. A Secretaria da Fazenda tem trocentos prédios, cada um num canto da cidade. Vi um nome que continha algo como "atendimento ao público", e decidi ir até lá, já que o telefone não atendia, mesmo.
Centro de Belo Horizonte. Rua Rio de Janeiro, em plena Praça Sete. Quem conhece a cidade, sabe do inferno que estou falando. Vagas? Hahahahahaha... Só consegui um estacionamento, a 3 ou 4 quarteirões de distância, cobrando 6 reais por hora. Dirigir naquela região desperta ímpetos de fazer um strike com todos aqueles pedestres no meio da rua. E andar a pé é praticamente um rally, fugindo dos vendedores ambulantes, e das pessoas oferecendo empréstimos "na hora", fotos "na hora", compro ouro "na hora".
Cheguei ao tal lugar, e a recepcionista pediu minha identidade para cadastrar. Entreguei minha OAB: - Não tem identidade? - Olha, tá escrito aí na carteira 'identidade civil para todos os fins legais' - Ah, mas eles aqui querem é a outra, aquela comum.
Respirei fundo. Uma carteira da OAB é um documento muito mais formal que uma carteira de identidade. Para obter essa bendita carteira, tem que apresentar assinatura de 3 advogados abonando sua conduta, certidão de bons antecedentes, a identidade "comum", o CPF, além de ter que passar na bendita prova. Ou seja, ela vale muito mais. Mas eu não ia fazer esse discurso todo.
- Eu nem ando mais com a carteira comum, vai ter que ser essa, mesmo.
Cara de bunda, mas aceitou. Perguntou com quem eu ia falar.
- Não tenho a menor idéia, aliás, vim aqui exatamente para descobrir. - Ah, mas você sabe se é nesse prédio? Porque tem outro prédio da Secretaria da Fazenda no quarteirão de baixo. - Não, não sei. Vou lá em cima, e pergunto pro primeiro que tiver cara de saber, porque sozinha eu não consegui descobrir.
Nesse momento, acho que ela se compadeceu de mim, e me liberou para entrar. Subi até o 8º andar, e literalmente perguntei pro primeiro que passou - um senhor de idade - se ele sabia onde eu poderia resolver meu problema. Ele não sabia, mas chamou lá dentro um rapaz que deveria saber. O rapaz, é claro, também não sabia. Mas disse que devia ser no tal prédio do quarteirão de baixo.
Fui até lá, então, abrindo meu caminho a cotoveladas no meio da multidão, segurando a bolsa com força, morrendo de calor, e dirigindo meu ódio à burocracia. Quando cheguei lá...
- Não, não é mais aqui, agora é na Av. Brasil, 464.
A Avenida Brasil é em outro bairro, e definitivamente não ia dar tempo de chegar lá no meu horário de almoço. Respirei fundo, agradeci, e fui buscar meu carro. Maldita burrocracia. Maldita, maldita. Gastei meu horário de almoço inteiro, e não resolvi NADA.
E isso tudo, é claro, me lembrou o super clássico desenho "Os Doze Trabalhos de Asterix", em que um dos trabalhos é exatamente vencer a super burocracia romana para conseguir um formulário...
Depois de 6 anos de análise, confesso que não sei onde se enquadra a minha analista.
Tirinha diretamente do Blog do Galhardo (Caco Galhardo é um dos mais interessantes quadrinistas que eu conheço, e publica diariamente na Folha de S. Paulo).
Advogada, apaixonada por literatura, cinema, música, comida e cachorros (e feliz proprietária de duas cadelas labrador).
Já desisti de tentar resumir o que sou. Agora sou o que digo.