quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Metamorfoses
Uma hora em que é preciso enfrentar o medo do desconhecido, o medo do fracasso, o medo da morte, o medo da solidão, e fazer o que precisa ser feito.
Hora em que se aprende a perder, e que se descobre que esse aprendizado é, de fato, a maior das liberdades.
Em que se percebe que é preciso fazer as escolhas mais duras, e abandonar de vez as adolescências, as crises, as procrastinações.
Que a vida é tosca, mesmo, que as cenas não são de filme, os romances não são heroicos, os dramas não são plenos, e a comédia pastelão está sempre prestes a começar.
O humor é fundamental, a leveza é a chave da sanidade, responsabilidade não é fardo, crescer é aprender a carregar sem reclamar a bagagem que se recebeu.
2009, na prateleira, difícil como foi, sofrido como foi, fica guardado como o ano em que virei gente grande de vez. E nem estou achando tão ruim.
domingo, 29 de novembro de 2009
Resoluções de Ano Velho

Antes que esse ano acabe, antes que chegue o Natal, trazendo o fast-forward dos últimos dias, ainda há tempo de resolver. Detesto resoluções de Ano Novo e promessas de mudança na segunda-feira, condicionando a força de vontade a um arbitrário "começo" do calendário. O que é que impede de trocar de emprego na quinta-feira, de fazer regime no sábado, de parar de fumar em outubro?
Entendo que sejamos dominados pelo simbólico. Balizamos nossas vidas por rituais. Amamos os números redondos. Buscamos as coincidências, os padrões, temos imensa dificuldade com a aleatoridade. Queremos que o primeiro dia do ano seja o primeiro dia do "resto de nossas vidas".
Mas, para isso, acabamos postergando decisões que seriam úteis hoje. Deixamos para um outro dia mais mágico, uma ocasião especial, o momento adequado da conjunção dos astros. Não queremos que algo comece num dia comum. Como se algum dia fosse mais do que comum, embora destacado por quaisquer forças externas - o Papa Gregório, o Presidente da República, as contrações do parto.
Por isso, defendo que adotemos as resoluções de ano velho. É essencial que sejam tomadas num dia qualquer - pode ser inclusive uma segunda-feira, desde que ser segunda-feira não seja essencial à escolha. É importante também que não sejam tomadas todas uma vez: alguma invariavelmente ficará pelo caminho, senão todas. Cada resolução deve ser tomada em seu tempo próprio, não importando nem mesmo que ocorram em anos diferentes.
Torná-las públicas é opcional, mas, para o bem da sanidade mental de cada um, recomendo mantê-las para si. Resoluções mantidas por força de cobrança externa acabam se tornando fardos. É recomendável, ainda, anotá-las em algum lugar, de forma a permitir que, eventualmente, sejam recordadas ou abandonadas de forma definitiva e oficial. É preciso coragem para olhar uma resolução no olho e deixá-la para trás, embora mesmo isso possa ser libertador.
Aliás, nem peço perdão aos covardes: coragem é fundamental para quem pretende fazer resoluções de qualquer tipo. É preciso assumir o risco de descumpri-las e lidar com a própria fraqueza, ou o pior risco ainda, o de realizá-las, e ter que encarar que os problemas que antes eram muletas não são mais. É bom começar abandonando a primeira, e deixando o calendário para lá.
domingo, 15 de novembro de 2009
Ele Acaba
"O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado;"
Fato é que o amor acaba. Acaba nas pequenas agressões do cotidiano, e nas grandes agressões inesperadas. Acaba no desencanto e na indelicadeza, porque o amor é coisa frágil, cristal. Acaba no desencontro, no descompasso, acaba nas horas mortas da madrugada, acaba no susto, no medo, na submissão.
Deixa em seu lugar um incômodo que é mais que dor. É vazio e escuro, um buraco - não no peito, mas no estômago, como uma úlcera, roendo por dentro, queimando. Um desejo de posição fetal e imobilidade morna. É o desalento.
E quando o amor não acaba, mas é vencido pelas circunstâncias, então é preciso matá-lo, lentamente, com doses diárias de algum veneno insidioso. O amor não morre com balas de prata, nem com estaca no peito, há que se ter paciência e constância para sufocá-lo (como para mantê-lo, diga-se).
Com essa morte, vem o sofrimento da absoluta necessidade de alienar o outro: transformar em estranho e distante aquilo que antes era proximidade, conforto e a mais completa intimidade. Converter a comunhão de corpos e almas em polidez tépida, e seguir como se não fosse habitada por um vulcão.
Por fim, dificultando tudo, é preciso elaborar o luto - aceitar a perda, a morte do outro em mim, e de mim nele - para poder sobreviver. E sobrevivemos, todos, com exceção daqueles que, se não morressem de amor, morreriam de tédio.
Então, é de novo o meu amigo (pena que nunca pudemos sentar numa mesa de boteco) Paulo que conclui:
"...em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba."Porque o amor não acaba de verdade - sempre há amor em nós, que vivemos de amar e ser amados, e sem isso, nada somos.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
“Guinada 360º”
Estou me sentindo exatamente como o título desse post: depois de tanto girar, continuo no mesmo lugar.
A análise vai bem. Pelo menos, já consegui diminuir meus instintos assassinos no trânsito, o que contribuiu para melhorar muito meu humor, em geral. Mas ainda não consegui progresso nos meus bloqueios de carreira, na minha inércia, e num bocado de conflitos e sintomas que estão por aí. Sim, eu sou ansiosa, embora saiba que esse tipo de coisa não se resolve de um dia para o outro.
Falando em carreira, fiz o concurso de Procurador do BACEN. Estudei? Claro que não. Por consequência óbvia, tomei uma ferrada sem tamanho. Menos de 50% da prova (tava difícil, mas pô… Nem 50?!).
Fui muito mal-acostumada, porque me saí bem durante toda a vida acadêmica praticamente sem esforço. Ia às aulas, e até fazia exercícios que o professor mandava, mas estudava só na véspera da prova, e ainda ficava entre os melhores alunos. Foi assim no colégio todo, foi assim que passei no vestibular, foi assim na faculdade, foi assim no Exame da Ordem. Mas aí empaquei, porque concurso, hoje em dia, não é uma disputinha qualquer. Não dá pra levar “no sapatinho” (#gíriadécadade90).
No fundo, ainda fico achando que vou conseguir passar só com meus belos olhos, sem ralar como todo o resto das pessoas. Como se eu fosse assim muito especial, ungida, uma mente privilegiada e inigualável. Só que, por razões óbvias, não tá dando certo.
Estou com 2 anos e meio de formada – colei grau, oficialmente, em fevereiro de 2007 – e continuo presa num emprego de meio período que paga proporcionalmente a isso, sem conseguir sobreviver da minha profissão, sem coragem para largar e ir fazer outra coisa (embora vá dar um seminário de adestramento em novembro), morando na casa de mamãe e longe dos cachorros, sem poder nem ir ao cinema por falta de grana.
Girei 360º. Agora preciso, pelo menos, conseguir andar para frente em linha reta.
terça-feira, 30 de junho de 2009
Psi..o quê? Ou: no divã (que não é o filme)
Como disse antes, voltei para a análise, e talvez seja por isso que ande postando pouco. As ideias estão desorganizadas demais.
Quando comento que frequento o psicanalista, muita gente fica curiosa, quer saber mais, até porque existe um certo misticismo rondando a psicanálise, fomentado por filmes, livros e comentários debochados em geral.
“Algumas vezes um charuto é apenas um charuto”
(Para ver uma boa representação das fantasias que se nutre acerca do psicanalista, vale a pena assistir ao curta feito por Steven Soderbergh no filme Eros. O filme teve uma péssima recepção pela crítica, em grande parte, por não ter atingido suas pretensões, em se tratando de três diretores consagrados, sendo Antonioni considerado um gênio do cinema. Mas é bom, ainda assim.)
Não sou uma especialista em psicanálise, meu estudo sobre o tema se resume a uns dois ou três livros de Freud, mas já tenho um bocado de milhagem de divã. Então, acabo tendo minhas próprias maneiras de explicar o processo aos curiosos.
Algo que sempre digo a respeito da psicanálise é que começar a frequentar o analista é como começar a arrumar um armário: é preciso desarrumar tudo, para tentar reorganizar depois. A fase inicial da análise é muito difícil, a família e os amigos reclamam, a gente mesma fica se sentindo meio fora de lugar. Mas, aos poucos, como acontece com o armário, as coisas vão se encaixando aqui e ali, e o desespero com a bagunça diminui (embora a bagunça em si possa levar muuuito tempo para melhorar).
Um mito comum que é bom esclarecer: analista não resolve problema. Analista não dá conselho. Não adianta ir até lá achando que vai ser como uma maquininha de refrigerante, em que você insere a moedinha, aperta o botãozinho com a descrição do seu problema, e a latinha com a solução cai pelo buraco.
Rapadura é doce, mas não é mole, não!
Análise dá trabalho para o analisando. O analista vai conduzindo, provocando, sugerindo, mas ele não chega às conclusões por ninguém. Cada um precisa elaborar suas próprias questões, trazer à tona os conflitos que estão ocultos, e mastigá-los bem. Ruminá-los na busca do tão procurado insight, o orgasmo da análise, o momento em que, usando a metáfora do armário, uma caixa acha seu lugarzinho na prateleira adequada – e que nem sempre é aquela onde se queria inicialmente colocá-la.
No meu caso específico, meu analista é lacaniano, e usa a técnica do tempo lógico: a sessão não tem duração fixa, e termina no momento… lógico – ou seja, no momento em que o analista percebe que algo importante foi dito, que alguma conclusão importante foi atingida. Isso significa que já tive sessão de 15 minutos, de meia hora, de 45 minutos, e devem continuar variando. Analistas freudianos, por outro lado, têm sessões com duração fixa, o que algumas vezes implica silêncios intermináveis e constrangedores – o que também tem seu lado interessante.
O objetivo disso tudo? Tentar diminuir a angústia, encontrar o próprio desejo, dar voz a ele, e enxergar os problemas apenas do tamanho que eles realmente sejam, ou o mais próximo possível. E ainda parece pouco. Não é à toa que dizem que só maluco faz análise.
terça-feira, 16 de junho de 2009
As pequenas coisas


terça-feira, 26 de maio de 2009
Escuridão

