domingo, 15 de novembro de 2009

Ele Acaba

É de Paulo Mendes Campos o texto que dá nome a este blog, e mais uma vez me vejo tentada a recorrer às palavras dele, que escreveu uma linda e sofrida crônica chamada "O Amor Acaba", em que diz:
"O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado;"

Fato é que o amor acaba. Acaba nas pequenas agressões do cotidiano, e nas grandes agressões inesperadas. Acaba no desencanto e na indelicadeza, porque o amor é coisa frágil, cristal. Acaba no desencontro, no descompasso, acaba nas horas mortas da madrugada, acaba no susto, no medo, na submissão.

Deixa em seu lugar um incômodo que é mais que dor. É vazio e escuro, um buraco - não no peito, mas no estômago, como uma úlcera, roendo por dentro, queimando. Um desejo de posição fetal e imobilidade morna. É o desalento.

E quando o amor não acaba, mas é vencido pelas circunstâncias, então é preciso matá-lo, lentamente, com doses diárias de algum veneno insidioso. O amor não morre com balas de prata, nem com estaca no peito, há que se ter paciência e constância para sufocá-lo (como para mantê-lo, diga-se).

Com essa morte, vem o sofrimento da absoluta necessidade de alienar o outro: transformar em estranho e distante aquilo que antes era proximidade, conforto e a mais completa intimidade. Converter a comunhão de corpos e almas em polidez tépida, e seguir como se não fosse habitada por um vulcão.

Por fim, dificultando tudo, é preciso elaborar o luto - aceitar a perda, a morte do outro em mim, e de mim nele - para poder sobreviver. E sobrevivemos, todos, com exceção daqueles que, se não morressem de amor, morreriam de tédio.

Então, é de novo o meu amigo (pena que nunca pudemos sentar numa mesa de boteco) Paulo que conclui:

"...em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba."
Porque o amor não acaba de verdade - sempre há amor em nós, que vivemos de amar e ser amados, e sem isso, nada somos.

6 comentários:

Alessandra Mosquera disse...

Belo post.
E é uma bela verdade (apesar de tudo).
Beijao daqui de longe

Sara Favinha disse...

Lindo post Deb... estou aqui ok?

Beijo

Fabio Rocha disse...

Muito bom o texto... Parabéns!

Jesse disse...

Realmente inteligente.

Vivian disse...

Ah mas nós vamos continuar tentando contrariar esse Paulo né? Pq afinal somos teimosas pra caralho nenhum botar defeito kkkkkk

Bjokas Moco

Viviane Silvestre disse...

Descobri isso da pior forma ... bem que o Paulo poderia ter me dito isso antes :P