quarta-feira, 9 de julho de 2008

Nós e os elevadores


Muito bom o texto* do Marcelo Coelho na Folha de S. Paulo de hoje, sobre o uso do elevador.

Vivemos num país em que, ao mesmo tempo, somos cordiais e grosseiros; acolhedores e delicadamente trogloditas. Temos um espaço vital reduzido, e constantemente invadido por estranhos, mas isso em geral não nos incomoda, tendo sido acostumados desde a mais tenra idade.

Lembro-me de quando estive na Inglaterra. As pessoas mantinham uma distância regulamentar enorme. Mesmo na estação do metrô, aquele lugar caótico, a todo momento se ouvia um "sorry" polido, diante de qualquer esbarrãozinho que aqui no Brasil nem seria notado.

E o elevador, por seu exíguo tamanho, e pela proximidade forçada que causa, é um bom indicador dessas diferenças.

Ou talvez, até mais do que isso. Uma pesquisa publicada na revista Mente e Cérebro, comparando o comportamento das pessoas ao entrar no elevador, concluiu que existem padrões que podem apontar diferenças individuais de personalidade. Alguns exemplos mencionados:
  • Intrometido – Falador e, em geral, indiscreto, sente-se no dever de conversar com todos, falando interminavelmente até o elevador se esvaziar.

  • Observador – Perscruta os outros da cabeça aos pés, observando detalhes da roupa ou características físicas; não fala, parece não exprimir nenhuma emoção e fica atento mesmo que o elevador esteja vazio.

  • Arrogante – Na maioria das vezes vestido de forma impecável, olha os outros com desprezo ou auto-suficiência e, em geral, é um front runner**. Não raro, assume tal atitude por puro mal-estar causado pela proximidade alheia. Costuma sacar o celular assim que a porta abre.

  • Intratável – Faz de tudo para evitar qualquer contato, físico ou verbal. Se o elevador está ocupado, hesita entre entrar, usar a escada ou esperar a próxima viagem. Se alguém tenta romper o silêncio, fica quieto, olhando para frente.

  • Vaidoso – Busca imediatamente um espelho e, na falta deste, usa a superfície metálica que reflete sua imagem para ajeitar roupas, cabelos e sobrancelhas.

  • Inseguro – Mostra-se hesitante, atrapalha-se com o andar. Solicita as mais diversas informações.

Lendo essa lista, consigo facilmente visualizar cada um desses tipos. De acordo com a matéria da revista, muitas vezes o comportamento assumido dentro do elevador não reflete aquele que a pessoa tem na vida cotidiana.

Talvez porque o elevador seja o lugar onde a nossa solidão fica mais saliente. Estamos ali, cercados de pessoas, e não conseguimos, na maior parte das vezes, sequer travar um diálogo, sequer romper aquela fina barreira de desconhecimento. A proximidade física extrema não impede o estranhamento, ou, pelo contrário, o acentua.

Estamos todos tão próximos, e tão sozinhos. E não, isso não se refere apenas ao elevador.

*Matéria acessível apenas para assinantes UOL e Folha de S. Paulo

** Front runners, de acordo com a pesquisa, são as pessoas que se postam logo em frente à porta do elevador, prontas para sair correndo assim que ela se abrir.

2 comentários:

Ventania disse...

Fiquei pensando como sou no elevador... não me encaixei em nenhuma dessas categorias. Mas que fico louca prá sair logo lá de dentro, eu fico! hehe

Alessandra Mosquera disse...

Sou meio que um pouco de vários desses tipos, dependendo do dia e da ocasiao... hehehe... mas eu prefiro o modo de ser do brasileiro do que do inglês, achava um saco aquela gente falando sorry a cada 30 segundos quando eu estava naquelas ruas movimentadas de Londres!

Mas é verdade, o mundo do elevador é mesmo um mundo a parte... principalmente aqueles elevadores enormes, de prédios de empresas, acho um barato, já vi cada coisa engraçada!