Quem me conhece pessoalmente sabe o quanto eu sofro com o trânsito. Não que eu seja ruim de roda - não sou, embora seja bem "pé pesado" -, mas uma série de coisas me incomoda:
1) Aqui em BH, parece que existe uma campanha não-declarada chamada "Seta Zero". O carro da frente anda feito uma lesma, você se prepara para ultrapassar, e de repente, não mais que de repente, ele converge à esquerda, mal dando tempo para você pisar no freio. Quando se é pedestre, é pior ainda, porque você nunca sabe exatamente o que o carro na via transversal vai fazer. Chega a ser um cara-ou-coroa, você sempre tem 50% de chances de ser atropelada se atravessar naquele momento. Para os belorizontinos, seta é um opcional que, se pudessem, eles não escolheriam no momento da compra do carro.
2) Gente lerda na pista da esquerda. Isso era um problema carioca clássico, mas virou também um problema beaguense. Não tenho nada contra lerdos, mas que eles permaneçam na linda pista da direita, que é especialmente reservada para eles. A pista da esquerda é de quem quer andar. Isso, é claro, não vale para a Inglaterra e alguns outros países, mas realmente não conheço muitos imigrantes londrinos por aqui. Aliás, isso acaba gerando o hábito de ultrapassar pela direita, e a pista da direita, em geral, é a mais vazia, e a que mais anda. Só falta colocarmos agora um aviso de "Look Right" nas travessias de pedestre, e já dá pra implementar a mão inglesa.
3) Estacionamento em fila dupla. Mais ainda em avenidas movimentadas, ou ruas que ligam essas avenidas. Existem algumas ruas que eu já apelidei de trechos de rally. São três pistas, mas em geral só uma está disponível para o trânsito normal, porque nas outras duas há carros com o pisca-alerta ligado, em fila dupla. Pisca-alerta é uma maravilha, faz o carro ficar invisível, insípido, inodoro e imune às regras de trânsito.
4) Carros andando em duas pistas. É a famosa "síndrome de Autorama". O pessoal cresceu brincando de Autorama, e aprendeu que o carrinho tem que andar em cima da linha, não entre as duas linhas. Haja auto-escola para desaprender lições tão precoces. Outra opção é que eles talvez estejam pagando alíquota dobrada do IPVA, o que dá a eles o direito de ocupar o espaço de dois carros. Curiosamente, em geral estão dirigindo devagarinho, de forma a deixar o motorista logo atrás muito feliz por não poder ultrapassá-los.
5) Falar ao celular no trânsito. Sou obrigada a fazer um "mea culpa", aqui, e admitir que de vez em quando faço isso. Mas agora tenho um super equipamento de viva-voz instalado no carro, o que me redime. Além de ser super perigoso tentar dirigir com a cabeça inclinada para o lado, equilibrando o telefone com o ombro (e péssimo para a postura!), ou com uma mão segurando o bichinho, é também terrivelmente irritante. As pessoas falando no celular são as que mais costumam praticar todas as outras coisas irritantes anteriormente mencionadas - afinal, como dar seta com uma mão no volante E no câmbio, e outra segurando o celular?
6) Motoqueiros. Digam o que quiserem, que eles são essenciais à vida moderna, que estão só trabalhando, mas eu ODEIO motoqueiros. Eles saem costurando entre os carros, entram na sua frente, e, quando o sinal abre, estão tão ocupados olhando alguma coisa na moto, ou uma mocinha bonita passando na calçada, que não arrancam. E tente buzinar para ver, ele começa a andar lentamente, no meio da pista. Isso quando não praticamente arrancam o retrovisor do carro, arranham a pintura, fazem super cortadas pela direita e ainda reclamam se você tinha a inocente idéia de fazer uma conversão (e tinha até dado seta!). Depois, um deles cai, e a culpa é do carro. E ainda querem indenização pelos dias parados. Que me perdoem os (eventuais, raros, e, para mim, desconhecidos) bons motoqueiros por aí, mas a média da raça é lastimável.
É claro que essas são só as coisas mais irritantes. Além delas, tem o pessoal que não arranca quando o sinal abre, a turma que quase estaciona o carro para fazer uma conversão (ou que invade a outra pista, num claro sintoma de "síndrome de Scania", muito comum em carros Fiat Uno e Ford Ka), a galerinha indecisa que dá seta para um lado e vai para o outro, os insuportáveis que grudam na sua bunda quando você dá seta e sinaliza que vai fazer uma baliza (rima involuntária), os "mano" que têm um som automotivo que vale mais que o carro e dirigem escutando funk no último volume, os pedestres que esperam o sinal ficar verde para atravessar...
No fundo, o que me irrita no trânsito é o que me irrita com os vizinhos: o incômodo gerado pela convivência forçada, por essa dependência em relação à boa-educação alheia, que em geral é falha. E nem adianta pegar ônibus, a coisa fica pior ainda. O melhor é respirar fundo, colocar uma musiquinha agradável, fazer lições de meditação zen, e assimilar que a tendência é que o buraco fique cada vez mais fundo. Como diria a Marta, tem que relaxar e gozar - será que com um insufilme mais escuro tem jeito?
domingo, 16 de novembro de 2008
terça-feira, 11 de novembro de 2008
Ética
Nos últimos tempos, de várias formas, me vi pressionada a pensar sobre a ética - o que ela significa, e como aplicá-la no cotidiano. Um episódio pessoal na vida do Nando, um belo texto da Babi, e eis-me aqui escrevendo sobre o tema.
Adoto aqui ética e moral como sinônimos, embora saiba que, conceitualmente, existem diferenças - a grosso modo, a moral seria o conjunto de normas de conduta aplicáveis em determinadas circunstâncias geográficas e históricas, enquanto a ética seria o aspecto científico, o estudo dessas normas de conduta.
Para Aristóteles, no seu Ética a Nicômaco, a ética é entendida como a busca da felicidade - não a felicidade hedonista dos tempos atuais, mas a eudaimonia, a felicidade de se fazer o que é certo e o que é bom, conciliando os interesses do indivíduo com os interesses coletivos. Para ele, a excelência moral estaria em adotar, praticando atos que reiteradamente o revelem, o meio-termo entre as disposiçõs morais extremas: a coragem, entre a covardia e a temeridade; a moderação, entre a insensibilidade e a concupiscência, e assim em tudo o mais.
De fato, uma das características essenciais da moral é o seu aspecto social. Só existem normais morais porque convivemos, porque constituímos sociedades e precisamos de regras que nos permitam viver bem.E é difícil pensar nesse "bem" como sendo algo muito distante do que Aristóteles defendia.
Vivemos numa circunstância histórica (século XXI d.C.) e geográfica (República Federativa do Brasil, Estado soberano da América do Sul) em que as normas morais parecem ter diminuído de valor. Ou, ainda, parecem ter-se relativizado. Pode-se dizer que a moral seja, sim, relativa, se pensarmos que ela se altera de acordo com as circunstâncias. Mas, mantidas as tais circunstâncias, e devidamente delimitadas, a relativização dos valores passa a ser perigosa.
Quando o declínio dos valores se passa num plano amplo, parece óbvio a todos que se trata de algo "errado" ou "ruim". É errado que um político desvie dinheiro público, é errado que um bandido seja solto por conveniências particulares dos poderosos, é errado que os projetos pessoais de poder se assenhorem daquilo que é, por natureza, de todos, é errado que o marido traia a mulher, é errado que a filha mate os pais, ou que os pais matem os filhos. Tudo isso é preto no branco, sem nuances de cinza, a princípio.
Mas é no cotidiano que se percebe o risco maior. É na forma como as relações se deterioram no plano mais restrito, na esfera da intimidade, que percebemos o prejuízo que a perda dos valores éticos traz para cada um. É a pessoa que fura uma longa fila, é o cafezinho do guarda, é o "jeitinho" que se dá num órgão público para obter mais rapidamente determinados benefícios, é o troco recebido a mais e nunca devolvido, é o som alto madrugada adentro, são os pequenos desrespeitos nossos de cada dia.
O que se reflete aí, sempre, é a prevalência do interesse privado sobre o coletivo. É o tempo do "eu". A ética vigente é a ética de Gerson, o clássico "gosto de levar vantagem", e que se reflete inclusive sobre as relações afetivas. Quantas pessoas não adotam, hoje, a postura do prazer desmesurado, sem a menor consideração pelo outro, por suas necessidades e sentimentos?
Se cada um prioriza apenas o que é seu, apenas seus interesses e suas pulsões, vamos retomando aos poucos a selvageria. Se é preciso defender com unhas e dentes o que é meu, acaba prevalecendo a lei do mais forte. Junte-se a isso um Estado fraco, que falha em impor suas normas jurídicas (não, não vou ficar aqui distinguindo a norma jurídica da norma moral), e uma cultura em que o mais esperto é visto como herói, e temos a anomia de que falava Durkheim. Se não temos normas morais pelas quais nos pautar, acabamos por viver à deriva.
É em grande parte por isso que as igrejas, com suas normas rígidas de conduta, venham angariando tantos adeptos. O fato é que sentimos falta de ter um norteamento claro de nossas ações. Acabam prevalecendo os valores familiares, mas sendo cada família um núcleo muito específico, a tendência é que esses valores sejam excessivamente discrepantes.
Tudo isso para dizer, apenas, que há momentos em que é preciso nos agarrar aos nossos valores mais firmes, às nossas convicções mais profundas, para evitar perder o sentido de tudo. Algo precisa resistir ao caos, e se não há uma moral heterônoma, é preciso que ela brote, autonomamente, do nosso próprio sentimento do mundo. Quando releio Aristóteles, percebo que aquilo que ele dizia, quatro séculos antes de Cristo, ainda hoje pode ser considerado uma conduta ética. Talvez a moral não seja tão relativa quanto alguns gostariam que fosse.
Adoto aqui ética e moral como sinônimos, embora saiba que, conceitualmente, existem diferenças - a grosso modo, a moral seria o conjunto de normas de conduta aplicáveis em determinadas circunstâncias geográficas e históricas, enquanto a ética seria o aspecto científico, o estudo dessas normas de conduta.
Para Aristóteles, no seu Ética a Nicômaco, a ética é entendida como a busca da felicidade - não a felicidade hedonista dos tempos atuais, mas a eudaimonia, a felicidade de se fazer o que é certo e o que é bom, conciliando os interesses do indivíduo com os interesses coletivos. Para ele, a excelência moral estaria em adotar, praticando atos que reiteradamente o revelem, o meio-termo entre as disposiçõs morais extremas: a coragem, entre a covardia e a temeridade; a moderação, entre a insensibilidade e a concupiscência, e assim em tudo o mais.
De fato, uma das características essenciais da moral é o seu aspecto social. Só existem normais morais porque convivemos, porque constituímos sociedades e precisamos de regras que nos permitam viver bem.E é difícil pensar nesse "bem" como sendo algo muito distante do que Aristóteles defendia.
Vivemos numa circunstância histórica (século XXI d.C.) e geográfica (República Federativa do Brasil, Estado soberano da América do Sul) em que as normas morais parecem ter diminuído de valor. Ou, ainda, parecem ter-se relativizado. Pode-se dizer que a moral seja, sim, relativa, se pensarmos que ela se altera de acordo com as circunstâncias. Mas, mantidas as tais circunstâncias, e devidamente delimitadas, a relativização dos valores passa a ser perigosa.
Quando o declínio dos valores se passa num plano amplo, parece óbvio a todos que se trata de algo "errado" ou "ruim". É errado que um político desvie dinheiro público, é errado que um bandido seja solto por conveniências particulares dos poderosos, é errado que os projetos pessoais de poder se assenhorem daquilo que é, por natureza, de todos, é errado que o marido traia a mulher, é errado que a filha mate os pais, ou que os pais matem os filhos. Tudo isso é preto no branco, sem nuances de cinza, a princípio.
Mas é no cotidiano que se percebe o risco maior. É na forma como as relações se deterioram no plano mais restrito, na esfera da intimidade, que percebemos o prejuízo que a perda dos valores éticos traz para cada um. É a pessoa que fura uma longa fila, é o cafezinho do guarda, é o "jeitinho" que se dá num órgão público para obter mais rapidamente determinados benefícios, é o troco recebido a mais e nunca devolvido, é o som alto madrugada adentro, são os pequenos desrespeitos nossos de cada dia.
O que se reflete aí, sempre, é a prevalência do interesse privado sobre o coletivo. É o tempo do "eu". A ética vigente é a ética de Gerson, o clássico "gosto de levar vantagem", e que se reflete inclusive sobre as relações afetivas. Quantas pessoas não adotam, hoje, a postura do prazer desmesurado, sem a menor consideração pelo outro, por suas necessidades e sentimentos?
Se cada um prioriza apenas o que é seu, apenas seus interesses e suas pulsões, vamos retomando aos poucos a selvageria. Se é preciso defender com unhas e dentes o que é meu, acaba prevalecendo a lei do mais forte. Junte-se a isso um Estado fraco, que falha em impor suas normas jurídicas (não, não vou ficar aqui distinguindo a norma jurídica da norma moral), e uma cultura em que o mais esperto é visto como herói, e temos a anomia de que falava Durkheim. Se não temos normas morais pelas quais nos pautar, acabamos por viver à deriva.
É em grande parte por isso que as igrejas, com suas normas rígidas de conduta, venham angariando tantos adeptos. O fato é que sentimos falta de ter um norteamento claro de nossas ações. Acabam prevalecendo os valores familiares, mas sendo cada família um núcleo muito específico, a tendência é que esses valores sejam excessivamente discrepantes.
Tudo isso para dizer, apenas, que há momentos em que é preciso nos agarrar aos nossos valores mais firmes, às nossas convicções mais profundas, para evitar perder o sentido de tudo. Algo precisa resistir ao caos, e se não há uma moral heterônoma, é preciso que ela brote, autonomamente, do nosso próprio sentimento do mundo. Quando releio Aristóteles, percebo que aquilo que ele dizia, quatro séculos antes de Cristo, ainda hoje pode ser considerado uma conduta ética. Talvez a moral não seja tão relativa quanto alguns gostariam que fosse.
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Rapidinhas
E de volta à programação normal, depois do frio e tenebroso inverno sem posts...
- Finalmente assisti "De Olhos Bem Fechados", o canto do cisne do Stanley Kubrick, com o ex-casal Tom Cruise e Nicole Kidman. Não sei se foi influência do livro "Os Filmes que Vi com Freud" (que eu adoro!), mas fiquei achando aquilo tudo um belo delírio psicótico do protagonista. Sei lá, alucinação pós-baseado, no mínimo. Delírio persecutório, com direito a ritual secreto e fantasias eróticas. E a atuação da Nicole Kidman é forçada, pra dizer o mínimo. Se eu fosse o bonequinho do Globo:
- Mamãe foi para a Europa e voltou (cheia de presentes), depois de 12 dias. Nunca imaginei que mãe fizesse tanta falta, mesmo depois que a gente vira adulta. Amei as coisinhas que ela trouxe, em especial as minhas encomendas da Lush, que não existe mais no Brasil. Gente, os cheiros daqueles produtos são simplesmente maravilhosos, não tem igual! E tudo cruelty-free, feito com produtos naturebíssimos. Eu sei, a Europa é longe, mas tem Lush no Chile, também...

- Fui assistir Aída no Palácio das Artes, dia 29. Visualmente, é lindo, o cenário é maravilhoso. A soprano que fez a protagonista também é um deslumbramento. A cena da Marcha Triunfal é de encher os olhos e os ouvidos. Já assisti outras óperas, adoro, sempre que tem alguma montagem interessante, procuro ir ver. Mas 4 horas seguidas assistindo uma ópera, das 20h à meia-noite, em plena quarta-feira, é cansativo demais. Ainda mais considerando que nem todos os solistas eram tão bons, e que algumas cenas (como a Consagração das Armas) são terrivelmente lentas. Enfim, bom, mas é preciso ir com a alma preparada....
- Cachorros tiveram tosse dos canis. Dá uma baita dó ver as bichinhas tossindo. Pegaram de uma cadelinha no agility, e admito que fiquei com muita raiva quando vi que tinham levado uma cadela doente para ficar no meio da cachorrada. Enfim, pelo menos as duas malucas estão medicadas, e passando bem.
E a vida segue. Vou tentar não ficar mais um mês sem posts...
- Finalmente assisti "De Olhos Bem Fechados", o canto do cisne do Stanley Kubrick, com o ex-casal Tom Cruise e Nicole Kidman. Não sei se foi influência do livro "Os Filmes que Vi com Freud" (que eu adoro!), mas fiquei achando aquilo tudo um belo delírio psicótico do protagonista. Sei lá, alucinação pós-baseado, no mínimo. Delírio persecutório, com direito a ritual secreto e fantasias eróticas. E a atuação da Nicole Kidman é forçada, pra dizer o mínimo. Se eu fosse o bonequinho do Globo:
- Mamãe foi para a Europa e voltou (cheia de presentes), depois de 12 dias. Nunca imaginei que mãe fizesse tanta falta, mesmo depois que a gente vira adulta. Amei as coisinhas que ela trouxe, em especial as minhas encomendas da Lush, que não existe mais no Brasil. Gente, os cheiros daqueles produtos são simplesmente maravilhosos, não tem igual! E tudo cruelty-free, feito com produtos naturebíssimos. Eu sei, a Europa é longe, mas tem Lush no Chile, também...
- Fui assistir Aída no Palácio das Artes, dia 29. Visualmente, é lindo, o cenário é maravilhoso. A soprano que fez a protagonista também é um deslumbramento. A cena da Marcha Triunfal é de encher os olhos e os ouvidos. Já assisti outras óperas, adoro, sempre que tem alguma montagem interessante, procuro ir ver. Mas 4 horas seguidas assistindo uma ópera, das 20h à meia-noite, em plena quarta-feira, é cansativo demais. Ainda mais considerando que nem todos os solistas eram tão bons, e que algumas cenas (como a Consagração das Armas) são terrivelmente lentas. Enfim, bom, mas é preciso ir com a alma preparada....
- Cachorros tiveram tosse dos canis. Dá uma baita dó ver as bichinhas tossindo. Pegaram de uma cadelinha no agility, e admito que fiquei com muita raiva quando vi que tinham levado uma cadela doente para ficar no meio da cachorrada. Enfim, pelo menos as duas malucas estão medicadas, e passando bem.E a vida segue. Vou tentar não ficar mais um mês sem posts...
domingo, 28 de setembro de 2008
Vizinhos

A vida em sociedade se enquadra na categoria "mal necessário". Somos uns bichos gregários, dependemos uns dos outros, e nos amontoamos para sobreviver. Nas cidades, isso fica ainda mais relevante: o amontoamento é literal, e vivemos empilhados em caixotes.
Tanta proximidade exacerba um dos aspectos problemáticos da convivência coletiva, que é justamente a presença do outro, com seus hábitos e valores diferentes dos nossos. Uma das regras para o bom convívio é justamente procurar respeitar o outro - não impondo nossos hábitos de forma ostensiva - e tolerá-lo, aceitando alguma dose eventual de incômodo.
O problema é que não é fácil administrar esse precário equilíbrio, principalmente porque, hoje em dia, as relações entre vizinhos deixam de ser pautadas por qualquer tipo de amizade. O vizinho passa a ser apenas aquela pessoa que mora ali do lado, sem que se busque mais nada em comum. É muito mais fácil ser tolerante com um amigo, do que com um estranho; é muito mais fácil se preocupar em respeitar um amigo, do que um estranho. O resultado é que os conflitos de vizinhança afloram cada vez mais.
Toda essa introdução, só para poder reclamar dos meus próprios vizinhos. Moro num prédio que tem 18 andares, com 3 apartamentos em cada andar. Meus vizinhos de andar são pessoas ótimas, nunca tivemos qualquer desavença. Aliás, em 10 anos morando aqui, nunca tínhamos tido qualquer espécie de problemas de vizinhança. Isso, até a chegada do casal do andar de cima.
O casal do andar de cima é um casal jovem, embora sejam mais velhos que eu, um pouco. Moravam numa casa em cidade do interior, e é a primeira vez que moram em apartamento. E são pessoas animadas, que têm uma turma de amigos aqui em BH.
Logo que eles se mudaram, era festa toda sexta-feira. Nas primeiras semanas, nós toleramos bem. Pensávamos que era só o entusiasmo da casa nova, o apartamento tem uma bela varanda, e eles queriam aproveitar. O chato é que o barulho da varanda deles vai direto para o meu quarto, e eles costumavam falar alto, e até tarde. Mas tolerávamos, tolerávamos. Quando passavam um pouco dos limites, ligávamos para o porteiro, esperando que eles se acostumassem logo com a nova rotina.
Só que não se acostumaram, e as semanas viraram meses. O barulho se arrastava, o som alto, a conversa barulhenta, madrugada adentro - e não mais apenas nas sextas-feiras, mas até mesmo durante a semana, eventualmente. As ligações do porteiro no interfone já não surtiam tanto efeito. A gota d'água veio numa noite em que, depois de já termos pedido para abaixar o volume à 1h da madrugada, fui acordada às 3h com a clássica canção pop-teen-anos 80 "Lua de Cristal" sendo berrada a plenos pulmões por um bando de bêbados.
Isso gerou uma reclamação formal no Livro de Reclamações do condomínio, e uma advertência do síndico. E paz para nós.
Ou, pelo menos, paz até a última sexta-feira, quando novamente fui acordada à 1:30h, mas agora por "Ilariê". Nova intervenção do porteiro (que já está com tanta raiva deles quanto nós), nova reclamação ao síndico. E, espero, mais alguns meses de paz.
Várias reflexões poderiam ser feitas, aqui. O individualismo exacerbado. A falta de preocupação com o sossego alheio. A ausência de parâmetro da parte de quem nunca morou em apartamento. O impacto de vivermos pisando na cabeça de alguém, literalmente, ao morarmos empilhados.
Mas não adianta, o que realmente me intriga é: por que diabos esse pessoal gosta tanto da Xuxa?
terça-feira, 23 de setembro de 2008
Rotina
Chega um momento em que a rotina se instala. Comodamente, ocupa o sofá e coloca os pés sobre a mesinha de centro. Não é uma visitante indesejada, ainda mais no caso de alguém que gosta de previsibilidade e estabilidade. Eu gosto da rotina.
O problema é o que ela vai se tornando.
Ela é a desculpa para a falta de notícias - "nada de novo, só a rotina de sempre"; para os desencontros - "ah, rotina atarefada, não pude ir encontrar vocês aquele dia"; para os esquecimentos - "no meio dessa rotina doida, acabei esquecendo seu aniversário!".
Em nome da rotina, o assunto vai rareando, as idéias se vão perdendo, as amizades se enfraquecem, e até o amor pode perder o brilho. É perigosa, a diaba. Paradoxalmente, ameaça exatamente a estabilidade que, em teoria, preserva.
Ou talvez não seja a rotina, mas o acomodamento. Talvez se coloque a culpa na rotina, sem que ela, coitada, tenha qualquer culpa no cartório. A rotina é só a repetição da seqüência de algumas atividades básicas - trabalhar, estudar, comer, fazer exercício, respirar, dirigir, subir de elevador. Mas se o tédio se instala na realização dessas tarefas, e nos interstícios, o que tem a rotina a ver com isso?
O que estraga não é a rotina, é a mesmice.
O problema é o que ela vai se tornando.
Ela é a desculpa para a falta de notícias - "nada de novo, só a rotina de sempre"; para os desencontros - "ah, rotina atarefada, não pude ir encontrar vocês aquele dia"; para os esquecimentos - "no meio dessa rotina doida, acabei esquecendo seu aniversário!".
Em nome da rotina, o assunto vai rareando, as idéias se vão perdendo, as amizades se enfraquecem, e até o amor pode perder o brilho. É perigosa, a diaba. Paradoxalmente, ameaça exatamente a estabilidade que, em teoria, preserva.
Ou talvez não seja a rotina, mas o acomodamento. Talvez se coloque a culpa na rotina, sem que ela, coitada, tenha qualquer culpa no cartório. A rotina é só a repetição da seqüência de algumas atividades básicas - trabalhar, estudar, comer, fazer exercício, respirar, dirigir, subir de elevador. Mas se o tédio se instala na realização dessas tarefas, e nos interstícios, o que tem a rotina a ver com isso?
O que estraga não é a rotina, é a mesmice.
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
Gerundismo
Ando vivendo, mais que nunca, um dia de cada vez. Sorvendo devagar o mel de cada hora, e deixando-me levar pelo inesperado.
Ando cedendo aos meus impulsos de prazer, permitindo-me gozar da vida, parar por um momento e relaxar sentindo a brisa do fim da tarde, nesse tempo quente e seco que me irrita.
Ando escrevendo pouco, lendo pouco, pensando pouco, deixo que o corpo me conduza, e espero que a serenidade se instale - aos poucos.
Ainda em aporia, mas permitindo que o tempo traga as respostas.
Aumentando o som, para poder ouvir o coração.
Amando muito e sempre, e cuidando para que as borboletas amarelas não me escapem pela janela.
Ando apenas sendo, e aprendendo que é tão difícil ser. Eu, sendo, é.*
*Parafraseando Clarice em "Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres".
Ando cedendo aos meus impulsos de prazer, permitindo-me gozar da vida, parar por um momento e relaxar sentindo a brisa do fim da tarde, nesse tempo quente e seco que me irrita.
Ando escrevendo pouco, lendo pouco, pensando pouco, deixo que o corpo me conduza, e espero que a serenidade se instale - aos poucos.
Ainda em aporia, mas permitindo que o tempo traga as respostas.
Aumentando o som, para poder ouvir o coração.
Amando muito e sempre, e cuidando para que as borboletas amarelas não me escapem pela janela.
Ando apenas sendo, e aprendendo que é tão difícil ser. Eu, sendo, é.*
*Parafraseando Clarice em "Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres".
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
Aporia
No E-Dicionário de Termos Literários, Carlos Ceia assim define a aporia:
1. problema insolúvel; situação sem saída;
2. uma espécie de inseto que cava a terra;
3. uma orquídea verde.
Fui atrás desses significados porque hoje me lembrei de um dos mais enigmáticos poemas de Drummond, "Áporo" - e agora vejo como ele facilmente se relaciona ao meu momento atual:
Ando tendo sonhos persecutórios recorrentes. Mudam os personagens, mudam os lugares, mas se mantém a sensação de estar encurralada, cercada de perseguidores desconhecidos, poderosos e onipresentes. Permanece também a angústia de não ter para onde correr, não enxergar saída, e nem saber ao certo a razão da perseguição.
Como a orquídea verde, indecisa, em aporia. Como o inseto áporo, cavo um buraco cada vez mais fundo, a pretexto de procurar uma saída. Como num labirinto, perdida.
Como Hamlet:
"To be, or not to be, that is the Question:
Whether 'tis Nobler in the mind to suffer
The Slings and Arrows of outrageous Fortune,
Or to take Arms against a Sea of troubles,
And by opposing end them"
É mais nobre padecer ou se rebelar? Mais nobre aceitar o destino, ou se insurgir contra o que ele reserva? Ser, ou não ser?
Aporamente me pergunto o que fazer.
"[Do gr. aporia, “caminho inexpugnável, sem saída”, “dificuldade”.] 1. Dificuldade, impasse, paradoxo, momento de auto-contradição ou blindspot que impede que o sentido de um texto ou de uma proposição seja determinado.(...)O dicionário Caldas Aulete prevê três significados para a palavra "áporo":
2. Como figura de retórica, a aporia diz respeito àqueles momentos em que uma personagem dá sinais de indecisão ou dúvida sobre a forma de se expressar ou de agir. O melhor exemplo é o célebre solilóquio de Hamlet, de William Shakespeare, consagrado na expressão “to be or not to be” (Acto III, 1).(...)"
1. problema insolúvel; situação sem saída;
2. uma espécie de inseto que cava a terra;
3. uma orquídea verde.
Fui atrás desses significados porque hoje me lembrei de um dos mais enigmáticos poemas de Drummond, "Áporo" - e agora vejo como ele facilmente se relaciona ao meu momento atual:
Áporo"Áporo", sem poro, sem saída, cavando um buraco onde se esconder, por onde tentar fugir. Brotando em orquídea verde - que é flor e folha, indecisa sobre o que pretende ser.
Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.
Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?
Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:
em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se.
Ando tendo sonhos persecutórios recorrentes. Mudam os personagens, mudam os lugares, mas se mantém a sensação de estar encurralada, cercada de perseguidores desconhecidos, poderosos e onipresentes. Permanece também a angústia de não ter para onde correr, não enxergar saída, e nem saber ao certo a razão da perseguição.
Como a orquídea verde, indecisa, em aporia. Como o inseto áporo, cavo um buraco cada vez mais fundo, a pretexto de procurar uma saída. Como num labirinto, perdida.
Como Hamlet:
"To be, or not to be, that is the Question:
Whether 'tis Nobler in the mind to suffer
The Slings and Arrows of outrageous Fortune,
Or to take Arms against a Sea of troubles,
And by opposing end them"
É mais nobre padecer ou se rebelar? Mais nobre aceitar o destino, ou se insurgir contra o que ele reserva? Ser, ou não ser?
Aporamente me pergunto o que fazer.
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