
É um filme de espionagem, um thriller que se passa na Alemanha Oriental, em meados da década de 80. Um espião da Stasi (a polícia secreta da República Democrática Alemã) é designado para investigar um escritor e sua amante, por meio de constante escuta no apartamento onde moram. Porém, de sua posição de espião, ele acaba se envolvendo na vida daqueles outros que espiava. E daí surge o fio que conduz brilhantemente a narrativa.
Não vou entrar em detalhes, afinal, espero convencer pelo menos alguém a ir assistir. O filme é lindo, emocionante, muito mais do que pode parecer por essa breve descrição. E sua fruição, e a reflexão que ela desperta, não se esgotam na sala de cinema.
A primeira dessas reflexões é acerca da intimidade, e da forma como os regimes totalitários se imiscuem na esfera de vida privada dos cidadãos. O casal investigado é escutado enquanto fazem sexo, enquanto conversam numa festa, enquanto têm conversas e discussões absolutamente íntimas. E tudo isso, supostamente, em nome da preservação do regime.
Mas a reflexão que mais me interessa é aquela acerca dos Outros. A vida dos outros é, essencialmente, um mistério. O que pensaríamos das pessoas que conhecemos, se pudéssemos ouvir os diálogos que travam na intimidade, todos os dias? O que descobriríamos a seu respeito? Será que manteríamos ainda nosso afeto e nossa admiração?
Ou, por outro lado: será que, ao ouvir as conversas de nossos amigos, não poderíamos perceber quão tolos fomos de não os valorizar como deveriam? Será que talvez não percebêssemos o quanto os subestimamos?
A personagem principal do filme mergulha, por meio das vidas alheias, numa rota de mudança sem volta, de humanização. A aproximação com os outros, com seus sentimentos, seus medos e fraquezas, e, até mesmo, com sua grandeza e suas melhores qualidades, tem, nesse filme, um efeito avassalador sobre a vida de um homem.
Talvez possa ter sobre as vidas de todos nós. Aproximar-se do outro, deixar-se tocar pelo que ele traz, procurar a comunicação improvável, é o que nos humaniza. A despeito da vontade louca de nos entocarmos e nos isolarmos, é a busca pelo outro que nos traz de volta ao convívio. Se existe algo de essencialmente humano - o que é uma idéia discutível, penso que esse algo pode ser, exatamente, a capacidade de se ver no outro, e amá-lo por isso.
Um comentário:
É pra presente?
:')
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